Certa vez entrei num shopping para comprar um presente para o amigo do meu filho mais novo, e quando entrei numa loja de brinquedos para ver uma promoção, me deparei com um diálogo entre mãe e filha. A filha queria porque queria uma boneca Baby Alive e a mãe dizendo que não podia naquele momento comprar. A mãe explicava e explicava e a menina choramingava querendo a boneca. Naquele momento eu já estava interessada para saber como seria o desfecho daquela cena. Se seria mesmo conforme eu estava prevendo. Não deu outra, quando a mãe tirou a boneca da filha, instantaneamente, ela se jogou no chão, gritando: “eu quero!” “eu quero!” Braços e pernas se debatiam freneticamente. A mãe, visivelmente constrangida, tentou pegar a filha no colo e a menina começou a lhe esmurrar nos braços, no rosto, além dos chutes.
Quem tem criança por volta dos dois e quatro anos, com certeza já vivenciou uma crise de birra com sua criança.
Mas, o que são as birras? Será que é “safadeza” ou “falta de pau” como dizem alguns, sem conhecimento de causa?

Para você que está passando por essa situação, eu vou te dizer por que isso acontece, bem explicadinho, para você não ter mais dúvida.
E vou te falar isso, baseado nos estudos da Pedagogia Waldorf que fundamentam a minha prática pedagógica.
Vamos lá!
Por que as birras acontecem?
A criança pequena, antes de completar dois anos, não se percebe como uma individualidade e não vê diferença entre ela e o mundo. Ela “é” o mundo. Por isso é tão difícil compartilhar os brinquedos também. Tudo com o que a criança nessa fase se envolve faz parte dela como ela mesma.
Por volta dos dois anos, com o desenvolvimento da fala, nasce a percepção do outro. Na relação com o outro começam a aparecer as simpatias e as antipatias. E a criança passa, então, a dizer não.
Enquanto o sim tem relação com aquilo que nos é simpático, o não se relaciona com aquilo que nos é antipático. No sim, eu me entrego, eu relaxo, me envolvo, me misturo. No não, eu me individualizo, me separo, me percebo.
Assim, quando a criança começa a se perceber como uma pessoa, como uma individualidade, ela deixa de ser o mundo e passa a estar no mundo. Para se perceber como individualidade eu tenho que me separar, me afastar, e o não traz essa condição de afastamento.
Depois de dizer muitos nãos, a criança, em determinado momento da sua existência fala EU. Lembra? Antes de dizer “eu quero isso”, ela dizia “Fulano ou Fulana quer isso”. Ela fala “eu” quando um lampejo de consciência acorda no seu pensar para lhe mostrar que ela é uma individualidade. E o “eu” tem quereres, desejos, vontades…
Como as partes do cérebro que são responsáveis pelas emoções, assim como, a reflexão, ponderação, julgamento, ainda não estão desenvolvidas, a criança vivencia tudo com seu corpo.
E assim como é importante a criança aprender a dizer não, é imprescindível que ela aprenda a ouvir o não também. Ouvir não para aquilo que a gente deseja não é fácil. Gera sentimentos de raiva, frustração etc. Se para os adultos é ruim ouvir não, imagina para a criança que está em desenvolvimento.
Ela não consegue se controlar ainda. E quanto maior for a frustração, maior o ataque de birra. O genuíno ataque de birra, a criança fica fora de si, a consciência de eu lhe escapa.
Você já deve ter desejado algo com todo o seu ser e se não conseguiu o objeto de desejo deve ter ficado muito chateado, com raiva, talvez. Como era se sentir assim? Era bom aquele sentimento?
Pois é isso que a criança sente. Só que esse sentimento é expresso no seu corpo.
O que fazer?
Não é porque os acessos de birra, é algo natural que a criança precisa passar para se desenvolver, que você vai permitir que ela quebre tudo, lhe bata, puxe seu cabelo. Nesse momento é importante manter a calma, para também não ficar fora de si e agir com coerência.
Não permita que ela te bata, te chute. Se for preciso, segure-a. Se você conseguir cantar nessa hora, é a melhor coisa. Vai te ajudar a respirar. Mas, é importante você mostrar que ela pode aprender a se controlar. E aqui é mostrar mesmo, quanto menos você falar, dando justificativas ou explicações do porquê não, melhor. Ela vai precisar desse aprendizado, porque na vida passará por muitas frustrações e ela não vai poder sair quebrando tudo, não é mesmo?
Mantenha o seu não. Com certeza, você não falou “não” à toa. Houve uma razão para isso. Voltar atrás será muito prejudicial e toda vez que você disser não, a criança não vai aceitar. Os pequenos são bem espertos, aprendem logo como manipular para conseguirem o que querem. Seja firme.
Não se envergonhe se estiver em um lugar público, com muitos olhares. Aja como se estivesse só com a criança. Se ela estiver se jogando no chão e não há risco dela se machucar, mantenha a calma e espere. Quanto menos você falar, melhor. Depois que ela extravasar e perceber que você continua ali, mas sem bajulações ou broncas, ela vai parar.
Nesse momento, quando o primeiro lampejo de eu aparece na criança, é muito importante que ela vivencie os limites. Crescendo com noções de limites, ela se desenvolverá segura, para um melhor enfrentamento do mundo. Tem coisa que não dá para fazer. Tem coisa que se quer muito, mas não se pode ter. É de pequenininho que se aprender a lidar com esses sentimentos, que se aprende os limites e a viver com as frustrações.

